Controle de parasitas internos: vermifugação inteligente para bovinos

Controle de parasitas internos: vermifugação inteligente para bovinos

O controle de parasitas internos é um dos pilares da boa produtividade na pecuária de corte e leite. Vermes gastrointestinais e pulmonares comprometem diretamente o ganho de peso, a conversão alimentar e a imunidade dos bovinos, gerando prejuízos que, em alguns casos, passam despercebidos até se tornarem perdas econômicas significativas.

Mas, diante da resistência crescente dos parasitas aos vermífugos convencionais, é cada vez mais necessário adotar uma vermifugação inteligente, baseada em diagnóstico, planejamento e rotação estratégica de princípios ativos.

Por que o controle de parasitas é tão importante

Em sistemas extensivos, os bovinos estão constantemente expostos a parasitas internos — especialmente nematódeos gastrintestinais, como Haemonchus, Cooperia e Ostertagia, e cestódeos e trematódeos, em áreas alagadiças.

Esses parasitas:

  • Reduzem o apetite e a digestibilidade dos nutrientes;
  • Provocam anemia e diarreia crônica;
  • Comprometem o crescimento e o desempenho reprodutivo;
  • Podem causar mortalidade em bezerros e animais jovens.

Pesquisas da Embrapa mostram que infestações não controladas podem gerar perdas de até 20 kg de peso vivo por animal ao ano, o que, em grandes rebanhos, representa um impacto financeiro expressivo.

O erro mais comum: vermifugar sem diagnóstico

Durante décadas, o manejo antiparasitário foi realizado de forma empírica e calendarizada — ou seja, aplicava-se vermífugo a cada 90 dias, independentemente da necessidade.
Esse método, embora simples, levou a um dos maiores desafios atuais da pecuária: a resistência parasitária.

A aplicação frequente e descontrolada de vermífugos de um mesmo princípio ativo permite que os parasitas sobreviventes se tornem resistentes, tornando os produtos cada vez menos eficazes.

A vermifugação inteligente começa com o diagnóstico parasitológico de fezes (OPG — ovos por grama), que indica o nível real de infestação e ajuda a definir se o tratamento é necessário.

Princípios da vermifugação inteligente

1. Diagnóstico antes do tratamento

Realizar exames coprológicos em amostras representativas do rebanho (geralmente 10 a 15% dos animais) permite avaliar o grau de infecção e escolher o momento ideal para a aplicação do vermífugo.

2. Escolha adequada do princípio ativo

Os principais grupos de vermífugos disponíveis são:

  • Benzimidazóis (ex.: albendazol, febantel, fenbendazol)
  • Imidazotiazóis e tetrahidropirimidinas (ex.: levamisol)
  • Lactonas macrocíclicas (ex.: ivermectina, doramectina, moxidectina)

A rotação de princípios ativos evita que os parasitas desenvolvam resistência a uma única classe. A alternância deve ocorrer a cada 12 a 18 meses, preferencialmente com base em resultados de eficácia pós-tratamento.

3. Aplicação no momento certo

O ideal é alinhar o controle parasitário ao ciclo biológico dos helmintos e às condições climáticas:

  • Início das águas: é quando há maior contaminação das pastagens — momento crítico para vermifugação.
  • Fim das secas: o tratamento reduz a contaminação ambiental antes do início da estação chuvosa.

A recomendação pode variar conforme o sistema de pastejo e a categoria animal.

4. Estratégias por categoria

  • Bezerros e recria: devem receber atenção especial, pois ainda não desenvolveram imunidade plena.
  • Vacas em lactação: o foco é manter a sanidade sem comprometer a produção de leite (evitar resíduos).
  • Animais adultos em boa condição corporal: podem receber vermifugação seletiva, conforme diagnóstico.

Vermifugação seletiva: eficiência e sustentabilidade

A vermifugação seletiva é uma das práticas mais modernas e sustentáveis de controle. Em vez de tratar todo o rebanho, o produtor trata apenas os animais com alta carga parasitária, identificados por exames ou sinais clínicos (anemia, diarreia, perda de peso, pelagem opaca).

Essa prática:

  • Reduz custos com medicamentos;
  • Diminui o risco de resistência;
  • Mantém uma população de parasitas “susceptíveis” no ambiente, equilibrando o sistema.

Estudos mostram que o tratamento seletivo pode reduzir em até 60% o uso de antiparasitários, sem prejuízo no ganho de peso.

Integração com manejo de pastagens

Os parasitas internos completam parte do ciclo de vida no pasto — por isso, o controle deve ser também ambiental.

Boas práticas incluem:

  • Rotação de piquetes, evitando a superlotação;
  • Descanso de pastos por pelo menos 30 dias, para reduzir a presença de larvas infectantes;
  • Uso de integração lavoura-pecuária, que quebra o ciclo parasitário;
  • Evitar o uso contínuo de áreas úmidas para bezerros, que são mais suscetíveis.

Um bom manejo de pastagem reduz significativamente a pressão parasitária e aumenta a eficácia dos vermífugos.

Monitoramento da eficácia dos produtos

Após cada vermifugação, é importante avaliar a redução da contagem de ovos nas fezes (teste FECRT).
Uma eficácia inferior a 90% indica possível resistência, sendo necessário mudar de princípio ativo ou combinar produtos sob orientação técnica.

Inteligência, não rotina

A vermifugação inteligente não se resume a aplicar produtos periodicamente, mas sim a entender o ciclo dos parasitas, o ambiente e a resposta do rebanho.

O produtor que adota diagnóstico regular, rotação de princípios ativos e integração com manejo de pastagem garante melhor desempenho zootécnico, menor custo por animal e preservação da eficácia dos antiparasitários.

Em resumo, vermifugar bem é muito mais eficaz do que vermifugar com frequência.

 

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